Como sabemos o
vinho está presente há muito tempo na historia da humanidade, algumas vezes de
forma sutil, e outras vezes bem significativa, também teve um papel fundamental
para as primeiras civilizações humanas, por ser um fruto que precisa de tempo
ate chegar à qualidade para fabricação de um vinho. Assim é o começo da nossa civilização
humana.
Sobre a origem da vitivinicultura na França
existe uma verdadeira batalha entre os historiadores. Há os que acreditam nos
registros dos Romanos e outros acham que os predecessores dos Celtas
estabeleceram a elaboração de vinhos na França. Há ainda os que acreditam que
os franceses da idade da pedra eram vinhateiros, pois no lago de Genebra foram
encontradas sementes de uvas selvagens que indicam o seu uso há 12.000 anos ou
mais. Segundo a "Escola Celta" os empreendimentos do ocidente são
ignorados por não terem registros escritos. Os celtas da Gália foram ativos e
agressivos. Eles dominaram quase toda a região dos Alpes, na época em que os
atenienses dominavam a Grécia, invadindo a Lombardia na Itália (onde fundaram
Milão) e alcançando Roma, chegaram à Ásia Menor, penetrando na Macedônia e
alcançaram Delphi e fundaram um acampamento no Danúbio, em Belgrado.
A primeira verdadeira colônia romana na França
foi fundada na costa a oeste em NAarbo (hoje Narbonne) que se tornou a capital
da província de Narbonensis e, de fato, de toda a chamada "Gália
Transalpina". Com ponto de partida na Provence, os romanos subiram o vale
do Rhône e mais tarde no reinado de César dirigiram-se a oeste e chegaram na
região de Bordeaux. Bordeaux, Borgonha e Tréveris provavelmente surgiram como
centros de importação de vinho, plantando a seguir as suas próprias videiras e
obtendo vinhos que superaram os importados. No século II havia vinhedos na
Borgonha; no século III , no vale do Loire; no século IV, nas regiões de Paris,
Champagne, Mosela e Reno. Os vinhedos da Alsácia não tiveram origem romana e só
surgiram no século IX.
Após a queda do Império Romano seguiu-se uma
época de obscuridade em práticamente todas as áreas da criatividade humana e os
vinhedos parecem ter permanecido em latência até que alguém os fizesse
renascer.
Chegamos à Idade Média, época em que a Igreja
Católica passa a ser a detentora das verdades humanas e divinas. Felizmente, o
simbolismo do vinho na liturgia católica faz com que a Igreja desempenhe, nessa
época, o papel mais importante do renascimento, desenvolvimento e aprimoramento
dos vinhedos e do vinho. Assim, nos séculos que se seguiram, a Igreja foi
proprietária de inúmeros vinhedos nos mosteiros das principais ordens
religiosas da época, como os franciscanos, beneditinos e cistercienses (ordem
de São Bernardo), que se espalharam por toda Europa, levando consigo a
sabedoria da elaboração do vinho.
Dessa época são importantes tres mosteiros
franceses. Dois situam-se na Borgonha: um beneditino em Cluny, próximo de Mâcon
(fundado em 529) e um cisterciense em Citeaux, próximo de Beaunne (fundado em
1098). O terceiro, cisterciense, está em Clairvaux na região de Champagne.
Também famoso é o mosteiro cisterciense de Eberbach, na região do Rheingau, na
Alemanha. Esse mosteiro, construido em 1136 por 12 monges de Clairvaux,
enviados por São Bernado, foi o maior estabelecimento vinícola do mundo durante
os séculos XII e XIII e hoje abriga um excelente vinhedo estatal.
Os hospitais também foram centros de produção
e distribuição de vinhos e, à época, cuidavam não apenas dos doentes, mas
também recebiam pobres, viajantes, estudantes e peregrinos. Um dos mais famosos
é o Hôtel-Dieu ou Hospice de Beaune, fundado em 1443, até hoje mantido pelas
vendas de vinho.
Também as universidades tiveram seu papel na
divulgação e no consumo do vinho durante a Idade Média. Numa forma primitiva de
turismo, iniciada pela Universidade de Paris e propagada pela Europa, os
estudantes recebiam salvo conduto e ajuda de custos para viagens de intercâmbio
cultural com outras universidades. Curiosamente, os estudantes andarilhos
gastavam mais tempo em tavernas do que em salas de aulas e, embora cultos, estavam
mais interessados em mulheres, músicas e vinhos. Eles se denominavam a
"Ordem dos Goliardos" e, conheciam, mais do que ninguém, os vinhos de
toda a Europa.
É interessante observar que é da idade média,
por volta do ano de 1.300, o primeiro livro impresso sobre o vinho:"Liber
de Vinis". Escrito pelo espanhol ou catalão Arnaldus de Villanova, médico
e professor da Universidade de Montpellier, o livro continha uma visão médica
do vinho, provavelmente a primeira desde a escrita por Galeno. O livro cita as
propriedades curativas de vinhos aromatizados com ervas em uma infinidade de
doenças. Entre eles, o vinho aromatizado com arlequim teria "qualidades
maravilhosas" tais como: "restabelecer o apetite e as energias,
exaltar a alma, embelezar a face, promover o crescimento dos cabelos, limpar os
dentes e manter a pessoa jovem". O autor também descreve aspectos
interessantes como o costume fraudulento dos comerciantes oferecerem aos
fregueses alcaçuz, nozes ou queijos salgados, antes que eles provassem seus vinhos,
de modo a não perceberem o seu amargor e a acidez. Recomendava que os
degustadores "poderiam safar-se de tal engodo degustando os vinhos pela
manhã, após terem lavado a boca e comido algumas nacos de pão umedecidos em
água, pois com o estômago totalmente vazio ou muito cheio estraga o paladar
". Arnaldus Villanova, falecido em 1311, era uma figura polêmica e
acreditava na na segunda vinda do Messias no ano de 1378, o que lhe valeu uma
longa rixa com os monges dominicanos que acabaram por queimar seu livro.
É importante mencionar um fato
importantíssimo e trágico na história da vitivinicultura, ocorrido da segunda
metade do século passado, em especial na década de 1870, até o início deste
século. Trata-se de uma doença parasitária das vinhas, provocada pelo inseto Phylloxera
vastatrix, cuja larva ataca as raízes. A Phylloxera, trazida
à Europa em vinhas americanas contaminadas, destruiu praticamente todas as
videiras européias. A salvação para o grande mal foi a descoberta de que as
raízes das videiras americanas eram resistentes ao inseto e passaram a ser
usadas como porta-enxerto para vinhas européias. Desse modo, as videiras
americanas foram o remédio para a desgraça que elas próprias causaram às vitis
européias.
Finalmente, é imprescindível lembrarmos as
descobertas sobre os micro-organismos e a fermentação feitas por Louis de
Pasteur (1822-1895) e publicadas na sua obra "Études sur le Vin".
Essas descobertas constituem o marco fundamental para o desenvolvimento da
enologia moderna.
A partir do século XX a elaboração dos vinhos
tomou novos rumos com o desenvolvimento tecnológico na viticultura e da enologia,
propiciando conquistas tais como o cruzamento genético de diferentes cepas de
uvas e o desenvolvimento de cepas de leveduras selecionadas geneticamente, a
colheita mecanizada, a fermentação "a frio" na elaboração dos vinhos
brancos, etc. Ainda que pese o romantismo de muitos que consideram (ou supõem?)
os vinhos dos séculos passados como mais artesanais, os vinhos deste século
têm, certamente, um nível de qualidade bem melhor do que os de épocas passadas.
Na verdade algumas conquistas tecnológicas, como as substituições da rolha e da
cápsula por artefatos de plástico e da garrafa por caixinhas do tipo
"tetra brik" são de indiscutível mau gosto e irritam os amantes do
vinho.

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